sexta-feira, 18 de março de 2011

Chuva e fome

  Quando chove as ruas se refrescam, dissipando toda quentura retida no asfalto que por consequência deixa o ar um pouco abafado, além disso, com sua estrutura toda modificada à mercê de alagamentos. E então a rotina torna-se mais difícil para quem transita nas calçadas e principalmente para quem a tem como abrigo, expostos a fome e outras armadilhas da vida.
  Nesta época quem tem sombrinha fica lutando com o vento para não se molhar com os açoites da chuva, quem não tem, corre desesperadamente para pegar um transporte e ir pra casa, ou até mesmo esperar a chuva passar até que possa ir para seu lar, e então fazer da chuva um cenário para o sono, filme ou romance. Mas o que fazem aqueles que sabem que quando a chuva passar talvez não tenha mais abrigo, que terá que esperar o chão secar para voltar a se deitar? Muita gente não se preocupa com esses detalhes talvez porque não consigam enxergar o que de fato acontece no mundo, ou porque se preocupam somente consigo.
  A coisa mais difícil do mundo é uma das quais deveria ser a mais fácil: se colocar no lugar do outro, afinal somos seres humanos com necessidades, capacidades e sentimentos semelhantes. Como seria morar nas ruas sem ter, somente sendo, lutando para sobreviver? É raro alguém pensar nisto.
  Há milhares de pessoas desabrigadas nas ruas, e o número não para de crescer. O mundo todo presencia, mesmo que se tente esconder nos cantos das cidades, as súplicas por ajuda que muitas vezes tem como resposta a ignorância, as desculpas de dizer que seu trocado dado poderá contribuir com o indicie de violência por achar que será um investimento para as drogas entre outros artefatos que possam te atingir depois. Não podemos negar que boa parte desses “trocados" é o meio do qual eles passam a consumir bebidas alcoólicas e até outros tipos de drogas, mas o alimento pra saciar a fome é cada vez mais caro e o que eles ganham mal dá para preencher uma parte do vazio de seu estômago. Sendo assim, não lhe restam alternativa a não ser consumir esses produtos baratos que agem como sedativos e enganam a fome até que um "milagre" aconteça ou que a morte "venha a calhar".
  Mesmo enxergando toda essa situação ainda tem gente que reclama porque somente por um dia lhe faltou um detalhe. Agora imaginemos como será faltar detalhes todos os dias? Talvez seja como um gosto que já perdeu seu sabor.
  Analisando todas as reflexões o que mais dói é a conclusão. Como seria viver no frio, na chuva, exposto a queimadura do sol, com fome; como eternos animais considerados de outro mundo, porque a todo tempo são descriminados por viverem como não querem? A situação é preocupante, poucos tem tudo e muito nada têm.

Um comentário:

  1. tem razao,é uma das coisas que ja tentei, me colocar no lugar de outras pessoas...sentir um pouco o que as outros sentem..é meio dificil chegar a uma conclusao quando ja esta acostumado a sua vida...mais gostei do jeito que vc abordou o assunto (n vi nada de errado nele) e é a verdade, temos que abrir os olhos e nao pensar só no pessoal

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